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Ainda sobre Inovação
Ivan de Almeida
janeiro de 2009

Um dos enganos que se pode cometer na época atual é
acreditar que o processo de inovação com caracteríticas explosivas é para sempre.

A inovação só é possível a partir de dois pólos: esforço de guerra (inovação militar e estratégica -incluindo corrida espacial- que é sustentada pelo estado) e consumo. Ocorre que a inovação militar nunca foi, na história, capaz de produzir ciclos de prosperidade e de inovação acelerada por si só, visto ter uma única fonte de financiamento e una única finalidade relativamente estanque do resto do funcionamento social (e, aliás, protegida pelo segredo estratégico). Ela acontece, pode ser importante, mas é episódica, e sua dinâmica, por si só, não sutenta um capitalismo baseado em inovações.

O capitalismo baseado em inovações sustenta-se sobre o consumo, e quando isso acontece ele ajuda a perna militar gerando uma sinergia imensa. Temos então o máximo de desempenho no processo de geração de inovações.

Contudo, esse processo é caríssimo. A pesquisa tecnológica é caríssima, ela só é sustentada por uma dinâmica de mercado muito consistente. Pesquisadores são mão de obra cara, e as pesquisas são lentas, embutindo enormes custos financeiros.

Por outro lado, o processo de inovação acarreta a substituição e a obsolescência de equipamentos, acarretando enorme dano ambiental. Observando de forma isenta, o mundo não pode suportar tal processo de inovação por muito tempo sem exaurir-se.

Estamos, presentemente, em uma crise imensa que afetará severamente o consumo, baixando absurdamente as margens de lucratividade das empresas e reduzindo a capacidade da sociedade absorver bens de consumo duráveis somente por suas características inovadoras. Simplesmente vai faltar dinheiro. De certa maneira, essa crise acaba com o capitalismo, não acabando com a livre iniciativa, mas tornando a economia comandada pelos estados, como se vê acontecer em todo lugar do mundo. O capitalismo não desaparecerá, mas será "envelopado" pelo estado, assim como o sistema feudal foi envelopado pelo capitalismo. E nesse contexto, somado ao contexto ambiental no qual o estado tem o principal papel a cumprir conformando as injunções legais que devem ser seguidas pelos particulares, temos um grande mitigador da pesquisa voltada para o consumo, enfraquecendo muito a sinergia acima apontada.

A pesquisa financiada pelo estado não será voltada para o consumo, mas para saúde, agrigultura, indústrias estratégicas.

Na fotografia, embora produtos segmentados possam ser criados, acresnentando-se funções a aparelhos existentes, a realidade é que as pessoas comuns querem apenas fotografar e há um ponto no qual os resultados tornam-se a coisa que realmente importa, e a pessoa percebe que já os vem obtendo há muito tempo. Quem sustenta a indústria não são os poucos fotógrafos que precisam de equipamentos específicos, mas a grande massa que precisa de câmeras de entrada de desempenho satisfatório. Eu mesmo com uma mera 20D, não tenho "coceira" de trocar de câmera, visto a atual fazer o que preciso. Na realidade a 300D já fazia, a 20D apenas é mais cômoda.

Gente com menos dinheiro, indústria com margens menores de lucro, menos dinheiro para custear pesquisas, encarecimento das pesquisas pela perda de escala e pela diminuição da sinergia, cuidados ambientais que inibirão a criação de novos produtos... tudo aponta para uma sociedade menos caracterizada pela inovação. E a substituição de produtos que será priorizada terá características de minimização do seu impacto ambiental. A inovação do futuro será o ajuste dos produtos ao ambiente.

O homem atual acostumou-se em ver a inovação como mero desdobramento da ciência, mas esqueceu-se que a ciência é tão somente um fenômeno social. E como fenômeno social e não tem seu impulso em si mesma, mas na sociedade. As condições de organização da sociedade definirão o ritmo de inovação. A crença na inovação derivada da meramente da ciência nada mais é que um ranço positivista de uma ciência-maravilha que funciona sozinha.

15 CommentsChronological   Reverse   Threaded
rfpereira wrote on Jan 15, '09
Ivan,

Compartilho totalmente da sua opinião. Na verdade, já está mais do que na hora desse modelo de avanço tecnológico ser baseado e custeado no consumo perder força. Está se chegando a um ritmo de substituição de consumíveis que é impossível de se manter, especialmente pela exaustão dos recursos. Ainda que se tenha menos dinheiro para a inovação, se ele for empregado em áreas que de fato tragam benefícios reais para a sociedade mas que hoje não recebem muitos investimentos por não gerarem lucro, como a educação, a psicologia e outras áreas.
demian69 wrote on Jan 15, '09
thanks
ivandealmeida wrote on Jan 15, '09
Exatamente. O direcionamento do dinheiro da pesquisa, quando o consumo não for mais a mola propulsora, será politicamente enviezado, isso significando pequisa em atendimento a necessidades de moradia, saúde, educação, atividades de base da economia (infraestrutura), etc, onde a ação do estado é dirigida por metas políticas, não pela mão invisível. Continuará a haver inovação, é claro, mas não mais uma economia baseada em inovação e sim inovações a serviço da gestão politica da sociedade.
Pardoxalmente, após os arautos do fim da história, o que teremos serão sociedades mais políticas que antes, no sentido de não se considerar mais o pólo da mercado auto-regulador como válido. O caráter político tornar-se-á explícito.
rodrigovieiraribeiro wrote on Jan 15, '09
Gostei do seu ponto de vista e das suas colocações sobre a crise. Gostei mais ainda de rever seus posts aqui no muti, eu ando afastado para poder terminar minha dissertação e a coisa tá braba.

Mas, se eu concordasse com tudo, não seria eu... não que eu vá criar uma polêmica violenta, mas tenho cá, as minhas dúvidas se esta crise é real ou se ela é meramente implantada pelos meios de comunicação.

Não consigo enxergar esta crise como um "apocalipse capitalista" vejo ela mais como uma autoregulação sobre alguns excessos. Excessos como as guerras produzidas no Oriente Médio, que tiveram a exclusiva finalidade de pescar os mercados do petróleo e do gás natural, e que deram muito errado saindo pela culatra (Europa ainda sem gás e os Estadunidenses sem lucrar com os poços de petróleo confiscados, alta despesa e lucro negativo foi o resultado destes quase 8 anos de guerra).

Vejo esta crise apenas como uma crise de poder Estadunidense e de reconfiguração nas balanças de poder mundial. O mundo percebeu que eles não são assim tão poderosos quanto todo o mundo pensa que são.

Concordo com vc quando leio que os estados pecisam estar à frente das inovações e que as prioridades do estado estão em outros campos e concordo tb que ciência é um fenômeno social.

O que vejo como mudança profunda na sociedade de base capitalista passa por esta ferramenta que estamos usando para dialogar, a Internet e por seu desdobramento esperado "a Sociedade da Informação"

Me considero um otimista quanto a estes assuntos e isso pode invalidar um pouco meus argumentos, mas vejo que é inevitável a democratização do estado e do capital se vier mesmo a surgir a chamada Sociedade da Informação.

Já vivemos em um mundo de ficção, capital são apenas números sem lastro e crises e crescimentos são provocados pela mídia associada aos poderes constituídos.

Com a internet acredito que o capital continue crescendo e que as inovações sejam alavancadas pelas iniciativas colaborativas nascidas na rede.

Penso que na fotografia a inovação passe pela expressão, pela democratização e acesso à produtos com custo baixo e alta qualidade, tecnologias para criar ambientes democratizados é o tom do nosso tempo.

Realmente a resposta não está na ciência e sim na sociedade democrática e de direitos, na educação e na sociedade que repense seus objetivos e suas formas de acumulação de capital e de crescimento econômico.

ivandealmeida wrote on Jan 15, '09, edited on Jan 15, '09
Rodrigo;
A crise do poder estadunidense é também a crise do modelo estadunidense do pós-guerra. O modelo pós-45, baseado no consumo acelerado compatível com um país que na época detinha 50% da renda mundial, exigia a criação de necessidades -inovações- para manter o consumo de quem já tinha tudo.

Esse modelo é denunciado já na década de 60 pelo Herbert marcuse em seu livro "A Ideologia da Sociedade Industrial", quando aponta que o homem já poderia atender às suas necessidades de vida, mas mantém um processo de criação de falsas necessidades cujo único resultado é manter o processo de acumulação e cujo efeito é alienar o homem de sua própria vida, acorrentando-o ao universo de desejos gerados pela publicidade.

Esse modelo apoia-se em publicidade (nunca se deve subestimar a publicidade no modelo atual), geração de falsas necessidades, obsolescência planejada para manter o giro alto e alienação do indivíduo de sua própria vida.

Não sou otimista nem pessimista quanto ao mundo. O mundo vai continuar sempre a mesma m*. Sou um observador, só.
rodrigovieiraribeiro wrote on Jan 15, '09
Não sou otimista nem pessimista quanto ao mundo. O mundo vai continuar sempre a mesma m*.
hehehee impossível discordar!

:-)
nightgoose wrote on Jan 15, '09
Vejo esta crise apenas como uma crise de poder Estadunidense e de reconfiguração nas balanças de poder mundial. O mundo percebeu que eles não são assim tão poderosos quanto todo o mundo pensa que são.
Muito bem colocado.
Estamos assistindo os estertores da potência hegemônica.
Nada disto mudará o mundo.
Abs a todos.
nightgoose wrote on Jan 15, '09, edited on Jan 15, '09
Ivan:
Estou vendo o mundo de forma muito semelhante. A sua citação de Marcuse foi patibular. Ghandi já descrevia este processo com outras palavras, o "comércio sem moral".
Grande abraço.
mutuca wrote on Jan 15, '09
crença na inovação derivada da meramente da ciência
O espaço, a fronteira final Audaciosamente...........
Sei não professor.
ivandealmeida wrote on Jan 15, '09
Elo;

O espaço me fascina, e acho que sair da Terra consistirá em uma maioridade da espécie humana. Mas não é desse tipo de inovação que falo, mas dessa que vira gadgets, que torna o DVD que comprei há seis meses velho. Por exemplo, no Renascimento houve muita inovação nas navegações, etc (sabe que o teatro de Cena Italiana tem seus dispositivos de palco muito semelhantes aos mecanismos de controle das velas dos navios?), mas a sociedade não estava baseada em inovação. As inovações eram fundamentais, mas a vida cotidiana não era em torno de inovações de consumo.
nightgoose wrote on Jan 16, '09
mas a vida cotidiana não era em torno de inovações de consumo.
Realmente.
ivandealmeida wrote on Jan 16, '09
Pois é. Foi legal o Elo ter falado disso, porque parece que está dito que inexistirão inovações, e não é o caso, apenas não teremos nossa vida moldada pela substituição incessante de bens de consumo, ou seja, é o pilar do consumo de varejo que irá se tornar menos dinâmico. É preciso lembrar que a URSS mandou o primeiro homem ao espaço dentro de um modelo de baixíssima taxa de inovação de consumo. No caso das óticas russas, as lentes são fabricadas por décadas, com pequeníssimas modificações, a partir de um patamar de qualidade atingido. As câmeras idem.
rodrigovieiraribeiro wrote on Jan 16, '09
Agora a base é sobre a obsolescência do saber e das habilidades pessoais!
Gente se tornando obsoleta...


Acho pior... mas a gente se adapta... (ou perece)
:-)
ivandealmeida wrote on Jan 16, '09
Já sou obsoleto há muito tempo, Rodrigo -risos.

Mas a obsolescência de gente é coisa muito antiga, veja o histórico processo de substituição do trabalho humano pela produção automática. Só que agora isso chegou ao "software".
nightgoose wrote on Jan 16, '09
;-))))))))
Da minha parte já não sei se sou obsoleto o simplesmente não existo!
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